sexta-feira, 19 de novembro de 2010

VACINAS DE DNA E BIOSSEGURANÇA

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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
Vasco Azevedo
Prof. Adjunto do Departamento de
Biologia Geral do Instituto de Ciências
Biológicas da Universidade Federal de
Minas Gerais- UFMG. Membro Titular da
CTNBio.
vasco@mono.icb.ufmg.br
Sérgio Costa Oliveira
Prof. Adjunto do Departamento de
Bioquímica e Imunologia do Instituto de
Ciências Biológicas da Universidade
Federal de Minas Gerais-UFMG. Membro
Titular da CTNBio.
scozeus@mono.icb.ufmg.br
Vacinas são administradas a pessoas sadias e, por isso, devem
ter um alto padrão de biossegurança.
As duas medidas de saúde pública
que tiveram maior impacto no controle
das enfermidades infecciosas e parasit
árias no mundo foram as de tratamento
da água e a vacinação, sendo a
segunda a que apresenta o melhor
custo-benefício. Há duzentos anos atrás,
Jenner criou uma nova era na medicina
quando intencionalmente infectou uma
criança com o vírus da varíola bovina.
Esse experimento, que hoje seria considerado
pela comunidade científica
como anti-ético, foi o começo para a
erradicação da primeira doença infecciosa
no mundo, a varíola humana
(Foto 1). Várias outras doenças e enfermidades
consideradas de maior gravidade
para a saúde humana estão sendo
controladas com vacinas tradicionais
ou de primeira geração (Tabela 1).
Apesar do sucesso dessas vacinas convencionais,
ainda existem muitas doen
ças que debilitam ou levam à morte,
como, por exemplo, a AIDS, a malária,
a dengue e a hepatite C, para as quais
não existem vacinas disponíveis ou as
que existem não são efetivas e apresentam
riscos inaceitáveis. Com o tremendo
avanço da biologia molecular,
que permite manipular, inserir e expressar
genes heterólogos em diferentes
organismos, novos tipos de vacinas
estão sendo desenvolvidas como alternativas
para o controle dessas enfermidades.
Dessas .vacinas recombinantes
. , a imunização genética ou vacina
de DNA é a mais promissora. Essa
tecnologia, de menos de uma década,
envolve a administração direta do DNA
plasmidiano carreando o gene codificador
da proteína antigênica, a qual
será expressa no interior da célula do
hospedeiro
nesta revista vários artigos
sobre o assunto (1-3) e na literatura
existe uma infinidade de exemplos
que demonstram a importância desse
novo instrumento na pesquisa biomé-
dica (4,5).
Vacinas são administradas a pessoas
sadias e, por isso, devem ter um alto
padrão de biossegurança. Os testes
clínicos das vacinas de DNA são similares
aos de outros produtos biológicos
(Tabela 2), sendo o seu controle de
qualidade mais fácil e menos oneroso
pois necessita apenas da certificação
da pureza do DNA. Contudo, existem
riscos potenciais de biossegurança,
como uma possível integração no genoma
da célula hospedeira do DNA
plasmidiano, que pode causar ativação
de oncogenes ou inibição de genes
supressores de tumor, e indução de
autoimunidade, que devem ser exaustivamente
investigados. Entretanto,
poucas evidências existem de que as
vacinas gênicas possam apresentar riscos
superiores aos desencadeados pelo
uso das vacinas convencionais (6).
Neste artigo, daremos ênfase ao tema
risco de integração do DNA vacinal no
genoma da célula hospedeira.
A integração do DNA plasmidiano
em cromossomos de células somáticas
pode potencialmente gerar efeitos patol
ógicos. A mutagênese por inserção
levaria a um câncer, caso esse evento
ative (proto-oncogenes) ou inative
genes (supressores de tumor) implicados
na regulação do ciclo celular. Essa
inserção pode ocorrer ao acaso ou por
meio da recombinação homóloga, sendo
que o primeiro evento seria o mais
freqüente. Para tentar diminuir a possibilidade
destes eventos ocorrerem,
deve-se evitar, se possível, que existam
seqüências nucleotídicas homólogas
ao do genoma humano no plasmí-
dio vacinal e que este não se replique
nas células hospedeiras. Plasmídios
usados na imunização genética possuem
uma estrutura com elementos regulat
órios como promotores, acentuadores,
terminadores, e sítios de poliadeniliza
ção reconhecidos pelas células
eucarióticas, marcadores de seleção,
que são, na maioria, antibióticos, e
uma origem de replicação que não é
funcional em células de mamíferos (7).
Apesar dos elementos regulatórios serem
funcionais nessas células, as seq
üências nucleotídicas desses plasmí-
dios não devem possuir homologias
significativas com o DNA genômico
. Recentemente, foram publicados
Foto cedida pelos autores
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
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dos mamíferos iguais ou superiores a
0,6 kilobases (kb), o que evitaria uma
maior eficiência na inserção do DNA,
ao acaso. Na recombina-
ção homóloga, além do
requisito anterior, os dois
genomas, o plasmidiano
e o do hospedeiro, devem
ser replicativos; como
os plasmídios mais utilizados
nas vacinas de DNA
não se replicam, a eficiência
desse evento ficaria
comprometida. Esses argumentos
teóricos são indicativos
de que a taxa de
integração é baixa, e se
esta ocorresse, a probabilidade
de mutação deveria
ser insignificante, e isso
foi comprovado pelos experimentos
pré-clínicos
realizados por Nichols e
colaboradores (8) e Martin e colaboradores,
(9) que utilizaram a técnica de
PCR (Polymerase Chain Reaction).
Como essa técnica é extremamente
sensível, foi necessário realizar algumas
adaptações para serem evitados
resultados falso positivos. Para que o
DNA genômico extraído de tecidos
musculares dos quadríceps dos camundongos
vacinados geneticamente
fosse separado do DNA plasmidiano
(vacina gênica), este foi digerido com
uma enzima rara, cujo sítio de clivagem
foi inserido no plasmídeo vacinal para
evitar a formação de concatâmeros,
eliminando uma migração em géis de
agarose conjunta com o DNA genômico.
Foram também tomados os clássicos
cuidados para evitar contamina-
ções na PCR, e, quando o resultado era
positivo, ou seja, havia a ocorrência do
evento de integração do plasmídeo no
genoma, foi necessário repetir os ensaios
com variantes da técnica de PCR,
como LMPCR ( Ligation-mediated-
PCR), ou PCR inversa, para a sua valida
ção. Nichols e colaboradores não
detectaram nenhuma evidência de integra
ção usando de 1 a 7,5 cópias de
plasmídeos por 150.000 células como
limite de sensiblidade, porém Martin e
colaboradores detectaram que entre 3-
30 cópias de plasmídeos ficavam associados
ao DNA genômico dos animais
vacinados. Apesar de resultados conflitantes
em relação à integração, a
conclusão dos dois grupos foi unânime
no cálculo de freqüência de muta-
ção induzida pela integração do plasm
ídeo no genoma do hospedeiro. A
probabilidade de uma mutação ocorrer
em um dado gene devido à imuniza
ção gênica, seria 3.000 vezes menor
do que a freqüência de mutação espont
ânea que ocorre no genoma das
células dos mamíferos. Entretanto,
Figura 1:
Foto da coleção do CDC (Center
for Disease Control and
Prevention) autorizada para
divulgação
Tabela 1. Datas da utilização em
seres humanos de vacinas de
primeira geração.
Homem com varíola.
Ano
1798
1885
1897
1923
1926
1927
1927
1935
1955
1962
1964
1967
1970
1981
Enfermidade
Varíola
Raiva
Peste bubônica
Difteria
Coqueluche
Tuberculose (BCG)
Tétano
Febre amarela
Poliomielite injétavel
Poliomielite oral
Sarampo
Papeira
Rubéola
Hepatite B*
De acordo com Plotkin & Mortiner
(15).
* Vacina de segunda geração
(proteina recombinante purificada
de células)
mesmo sendo a probabilidade tão
baixa para que eventos oncogênicos
ou patogênicos ocorram, somente um
longo período de avaliação
com um grande número de
voluntários permitiria determinar,
em seres humanos, a
ocorrência desses fenômenos
biológicos. O que significa
que os testes clínicos
são tão imprescindíveis para
as avaliações desses riscos
teóricos quanto para certificar
os benefícios potenciais
dessa nova tecnologia.
A agência reguladora
americana FDA (Food and
Drug Administration) agora
requer que testes com o uso
de PCR sejam feitos com as
adaptações descritas anteriormente
nos ensaios pré-
clínicos, mas ainda não estabeleceu
os níveis aceitáveis de integra
ção plasmidiana no genoma. Essa
mesma agência possui um documento
bem complexo que estabelece normas
para os experimentos em animais e
testes clínicos em humanos com a
utilização de vacinas de DNA (10) . Na
legislação brasileira de biossegurança,
ainda não existe uma instrução normativa
que seja específica e completa no
trato dessa matéria.
Testes clínicos na fase I e II em
seres humanos já estão sendo realizados
com vacinas de DNA contra as
seguintes enfermidades: AIDS, malá-
ria, linfoma das células B, melanoma,
hepatite B, e infecção pelo herpes
vírus. Calarota e colaboradores (11)
publicaram recentemente, na revista
.The Lancet., o resultado de testes
clínicos na fase I, onde indivíduos
imunizados com genes do HIV-1 induziram
resposta imune celular específica,
sem que efeitos colaterais tenham
sido observados. O grupo de Stephen
Hoffman (12), na fase I dos testes
clínicos com a vacina de DNA contra a
malária, relatou que a administração
foi bem tolerada, sem problemas de
biossegurança aparente e com uma
excelente indução da resposta celular.
Esses resultados deram suporte à passagem
para a fase II, onde serão feitos
testes de proteção contra essa enfermidade.
Nos tratamentos de câncer, as vacinas
de DNA estão sendo usadas em
pacientes quando os tumores são refra
48
Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
Tabela 2.
Testes Clínicos
Fases
I
II
III
Número de pacientes
20 a 100
Algumas centenas
Algumas centenas até
alguns milhares
Tempo
Alguns meses
Alguns meses até 2 anos
Alguns meses até 2 anos
Avaliação da biossegurança
e efeitos colaterais
+++
+++
+++
Teste de proteção
+++
+++
O primeiro passo para uma vacina ser aprovada para comercialização é o teste em animais de laboratório; se esses
não apresentarem reações adversas, as etapas posteriores podem ser prosseguidas. O passo seguinte são testes
clínicos em seres humanos, que são divididos em três fases de avaliação do nível de proteção conferido por estas
vacinas e a sua biossegurança. Se nas últimas fases, for comprovada que essas vacinas são efetivas e seguras, então
a indústria farmacêutica pode solicitar aos órgãos competentes a licença para a comercialização do produto
tários às terapias tradicionais. Em
um desses testes clínicos, pacientes
com melanoma receberam injeções
de DNA complexados a lipossomos
diretamente nos tumores. Em alguns
desses pacientes houve regress
ão do tumor e de suas metástases
(13).
Os testes clínicos relatados anteriormente
foram realizados através
da injeção direta de DNA no músculo
do indivíduo ou nos tumores,
porém o teste com a vacina de DNA
contra a hepatite B foi realizado por
meio da imunização pelo processo
da biobalística, utilizando-se o .gene
gun. ou arma de genes (14). O .gene
gun. é um aparelho que promove a
aceleração e a introdução de micropart
ículas de ouro encobertas com o
DNA plasmidiano recombinante na
derme dos indivíduos. Os voluntários
vacinados não se queixaram de
dor ou de qualquer outro desconforto
devido à utilização desse aparelho.
Uma resposta eritematosa moderada
e transiente foi observada, o
que consiste em uma resposta inflamat
ória natural da pele após a imuniza
ção. Esse estudo demonstra que
essa via de administração das vacinas
de DNA, utilizando a arma de
genes .gene gun., pode viabilizar a
imunização de um grande número
de indivíduos quase que automatizando
esse processo.
As vacinas de DNA em menos de
uma década têm dado uma contribui
ção real no campo da vacinologia,
e possuem uma grande vantagem
em relação às vacinas tradicionais,
o que torna essa tecnologia um
instrumento importante no combate
às doenças infecciosas que afetam a
nossa sociedade.
Referências bibliográficas
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ência & Desenvolvimento
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Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
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& Desenvolvimento
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Vacinas de DNA - O que são?

Há quase dois séculos, o desenvolvimento pioneiro da vacina contra a varíola feito por Jenner marcou o início de uma nova era para a medicina moderna. Desde então, a vacinação tornou-se a medida mais eficiente  e menos dispendiosa de evitar doenças. No entanto, infelizmente milhões de pessoas, incluindo milhões de crianças ainda morrem a cada ano de doenças infecciosas para as quais não existem vacinas efetivas. Elas incluem novas doenças emergentes tais como AIDS, ou antigas ameaças como a malária. Adicionalmente, vacinas imunoterapêuticas para certas doenças como o câncer são necessárias como terapias alternativas. Dentro deste contexto, as vacinas de DNA surgem como uma estratégia promissora. Essa tecnologia inovadora envolve a administração direta de DNA plasmidiano codificando antígenos imunogênicos para tecidos que são capazes de internalizar esse DNA e expressar o antígeno heterólogo de tal forma que irá induzir uma resposta imunológica efetiva.   
Um importante atributo da vacina de DNA é a apresentação antigênica via moléculas de MHC de classe I e classe II, o que mimetiza o processo resultante de um infecção natural, ativando linfócitos T CD4+, CD8+ além da produção de anticorpos.
VANTAGENS DAS VACINAS DE DNA
O uso das vacinas de DNA oferece uma série de vantagens econômicas, técnicas e logísticas quando comparado com as vacinas clássicas. Por exemplo, a produção em larga escala é bem mais barata, a manutenção do controle de qualidade mais fácil, e a comercialização não necessita de uma rede de refrigeração, pois estas vacinas são estáveis à temperatura ambiente.  Estes fatores facilitam o transporte e a distribuição, e viabilizam a transferência de tecnologia.
POSSÍVEIS PROBLEMAS
Como possíveis desvantagens podem ser citadas a possibilidade de integração do plasmídeo ao genoma hospedeiro de maneira danosa ou a exposição do sistema imunológico a altos níveis de proteína antigênica durante o período de expressão do gene.  Nenhuma evidência destes fenômenos foi comprovada, mas testes rigorosos devem ser feitos para que se possa validar uma vacina de DNA para uso em humanos.
VIAS DE ADMINISTRAÇÃO
As vacinas de DNA podem ser administradas por diferentes vias, rendendo respostas imunológicas mais ou menos potentes de acordo com o sistema escolhido.
A via de administração mais comumente utilizada é a injeção intramuscular direta do DNA de interesse, diluído em solução salina. Um outro processo muito explorado é o da biobalística, que consiste em usar um aparelho, o gene gun, para acelerar e introduzir na derme micropartículas de ouro cobertas com o DNA de interesse.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Vacina gênica contra a Tuberculose

BIOTECNOLOGIA E VACINAS GÊNICAS
"A vacina gênica - ou vacina de DNA -, ainda em fase de experimento e padronização, pode se tornar a maior promessa de combate a doenças infecciosas para as quais até hoje não existe prevenção segura, como herpes, AIDS, malária, tuberculose, hepatite, esquistossomose e dengue entre outras". A afirmação é do pesquisador Célio Lopes Silva, coordenador do Laboratório de Vacinas Gênicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP.

Ele explica que para a produção da vacina gênica, os cientistas retiram do agente causador da doença, que pode ser um vírus, bactéria, fungo ou parasita, um pedaço da molécula de DNA, onde fica seu código genético. Quando inoculado nos animais ou em humanos, esse pedaço de DNA que codifica uma proteína imunogênica, ou um fator de virulência, tem a potencialidade de induzir o sistema imunológico a produzir anticorpos ou estimular a imunidade mediada por células, principalmente linfócitos T auxiliares ou citotóxicos (uma das principais células de defesa de nosso organismo), protegendo contra a infecção causada pelo agente patogênico de onde se originou o DNA.

Célio Silva explica que desde que iniciou as pesquisas sobre novos tratamentos contra a tuberculose, em 1990, os pesquisadores já sabiam quais os elementos do sistema imunológico deveriam ser ativados ou desativados para induzir proteção efetiva contra a infecção. Até agora, em relação às substâncias do bacilo que estimulam as células para imunizar o paciente, o grupo da USP já estudou dezenas de proteínas em laboratório. Foi verificado que algumas delas possuem propriedades para estimular o sistema imunológico contra a tuberculose. Após várias tentativas com diferentes métodos de introdução dos antígenos nos animais, os pesquisadores da USP de Ribeirão Preto chegaram à conclusão de que a vacina de DNA seria a mais apropriada.
O método é considerado mais eficaz e seguro do que o de determinadas vacinas convencionais, que inoculam vírus ou bactérias vivas e atenuadas na pessoa para obrigar o sistema imunológico a produzir anticorpos ou imunidade celular. Essas vacinas de organismos vivos e atenuados, embora funcionem muito bem, oferecem uma certa margem de risco de que a pessoa acabe contaminada pela doença que se pretende prevenir. Com a vacina de DNA isso não acontece.
E Célio Silva explica porquê: "Atualmente, o isolamento de genes ou DNAs é uma técnica dominada pela ciência devido ao grande desenvolvimento da biologia molecular nos últimos anos. Os genes, freqüentemente relacionados com a virulência ou patogenia dos agentes infecciosos, são ligados a outros fragmentos de DNA, denominados plasmídeos, por técnicas de engenharia genética. Esse plasmídeo recombinante carrega a mensagem da vacina como se fosse um disquete contendo um arquivo de computador: quando aplicadas em animais, as células do sistema imunológico conseguem reconhecer aquela mensagem transmitida pelo plasmídeo como se fosse um computador e ocorre a ativação da resposta imunitária.
No caso da tuberculose, a ativação de linfócitos e macrófagos, que são as principais células de defesa do nosso organismo, resulta na destruição de células que albergam os bacilos da tuberculose em seu interior, ao mesmo tempo que ajuda a eliminá-los do organismo. Portanto, os estudos realizados em nosso laboratório sobre a capacidade das proteínas antigênicas em estimular de maneira adequada o sistema imunológico; o padrão de secreção de mediadores imunológicos (substâncias que levam as mensagens entre os diferentes componentes do sistema imunológico); a atividade citotóxica das células de defesa (capacidade de destruir as células infectadas com os bacilos); e o estudo sobre as células que guardam na 'memória' as informações para o combate aos bacilos, foram de fundamental importância para se estabelecer como o sistema imunológico protege contra a tuberculose e permitiu o desenvolvimento da vacina".
Para o pesquisador, as vacinas de DNA, além da imunidade humoral e celular específica, oferecem vantagens adicionais em relação às vacinas clássicas: "A vacinação, enquanto medida de saúde pública, requer a indução de imunidade duradoura. A maioria das vacinas usadas em programas de vacinação infantil requer a administração de sucessivas doses de reforço com revacinações periódicas. Com a vacina gênica esse problema seria resolvido uma vez que a imunidade adquirida persiste por longo período de tempo devido à constante produção do antígeno dentro da célula hospedeira e à capacidade destas de estimularem linfócitos de memória imunológica".
Célio Silva vai mais longe, apontando questões econômicas para o sucesso desse novo tipo de vacina: "Em termos econômicos, técnicos e logísticos, as vacinas de DNA oferecem uma série de vantagens quando comparadas com as vacinas clássicas, especialmente se considerarmos a sua utilização nas condições oferecidas pelos países em desenvolvimento. O custo de produção das vacinas gênicas em larga escala é significativamente menor do que o custo de produção das vacinas recombinantes, peptídeos sintéticos e outras. O controle de qualidade é mais fácil, e a comercialização não necessita de uma rede de refrigeração, pois estas vacinas são estáveis à temperatura ambiente. Estes fatores facilitam o transporte, a distribuição e o estabelecimento de amplos programas de imunizações em regiões de difícil acesso. As técnicas de biologia molecular permitem que se façam modificações na seqüências gênicas ou de DNA no sentido de melhorar a resposta imunológica. Estas manipulações genéticas podem dar subsídios para um melhor entendimento das relações entre estrutura e função dos antígenos frente à resposta imune desenvolvida. No plasmídeo contendo o gene do agente infeccioso pode-se ainda clonar outros genes, como por exemplo, os de componentes estimuladores da resposta imune (IL-2, IL-12 e IFN-gama) que auxiliam no processo de reconhecimento imunológico".
Segundo Célio Silva, três aspectos são fundamentais para o desenvolvimento de uma nova vacina.
1) O primeiro se correlaciona com a descoberta de quais células ou componentes da resposta imunitária são responsáveis pela proteção efetiva contra o agente agressor (mecanismo imunológico efetor). "A nossa equipe ficou estudando, por cinco anos, todo o sistema imunológico dos animais infectados com o bacilo da tuberculose, e quando iniciamos os estudos sobre a nova vacina já sabíamos quais os elementos que deveriam ser ativados ou desativados para induzir proteção efetiva contra a infecção", diz.
2) O segundo seria a descoberta de quais substâncias do bacilo (antígenos) conseguem estimular especificamente as células ou componentes da resposta imunitária descrita acima. "Até o momento já foram estudadas dezenas dessas proteínas em nosso laboratório e algumas delas possuem as propriedades para estimular o sistema imunológico contra a tuberculose", afirma o pesquisador da USP de Ribeirão Preto.
3) Em terceiro, qual seria a melhor maneira de se administrar esses antígenos nos animais para induzir uma resposta imunitária específica e potente contra o agente infeccioso em todos os indivíduos vacinados. "Após várias tentativas com diferentes métodos de introdução dos antígenos nos animais, chegamos a conclusão de que a vacina de DNA seria a mais apropriada", diz o pesquisador.

A vacina de DNA (ou vacina gênica) pode ser aplicada por via intramuscular e a imunidade que confere persiste por longo período de tempo, graças à constante produção do antígeno dentro das células dos indivíduos vacinados. Esse fato dispensa revacinações.

Empresa americana inicia 1º teste clínico com célula-tronco embrionária

Empresa americana inicia 1º teste clínico com célula-tronco embrionária

Paciente teve lesão medular recente; fase 1 analisará segurança da terapia.
A Geron é a primeira a receber autorização do FDA para aplicação humana.

Do G1, com informações de agências
Um paciente nos Estados Unidos é o primeiro a receber células-tronco embrionárias, anunciou nesta segunda-feira (11) a empresa de biotecnologia Geron. Mas os detalhes do teste clínico são mantidos em sigilo. "O começo do teste clínico GRNOPC1 é uma etapa importante para as terapias humanas baseadas nas células-tronco embrionárias", afirmou em comunicado Thomas Okarma, presidente da Geron.
No Brasil, as pesquisas com células-tronco de embriões humanos foram consideradas constitucionais pelo Supremo Tribunal Federal em 29 de maio de 2008. Por seis votos contra cinco, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou as pesquisas científicas com células-tronco embrionárias sem nenhuma restrição, como previsto na Lei de Biossegurança.

11/10/2010 12h58 - Atualizado em 11/10/2010 16h07

Empresa americana inicia 1º teste clínico com célula-tronco embrionária

Paciente teve lesão medular recente; fase 1 analisará segurança da terapia.
A Geron é a primeira a receber autorização do FDA para aplicação humana.

Do G1, com informações de agências
Um paciente nos Estados Unidos é o primeiro a receber células-tronco embrionárias, anunciou nesta segunda-feira (11) a empresa de biotecnologia Geron. Mas os detalhes do teste clínico são mantidos em sigilo. "O começo do teste clínico GRNOPC1 é uma etapa importante para as terapias humanas baseadas nas células-tronco embrionárias", afirmou em comunicado Thomas Okarma, presidente da Geron.
No Brasil, as pesquisas com células-tronco de embriões humanos foram consideradas constitucionais pelo Supremo Tribunal Federal em 29 de maio de 2008. Por seis votos contra cinco, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou as pesquisas científicas com células-tronco embrionárias sem nenhuma restrição, como previsto na Lei de Biossegurança.
 

Células-tronco utilizadas  vêm de embriões humanos excedentes de tratamentos de fertilidade
A Geron é detentora da primeira licença do FDA, a agência que regula medicamentos e alimentos nos EUA, para o uso das células no tratamento de pacientes com lesões recentes na medula espinhal.
"O paciente foi cadastrado no Shepherd Center, hospital com 132 leitos e centro de pesquisas clínicas sobre reabilitação de lesões cerebrais e da medula espinhal, situado em Atlanta, Geórgia", disse a Geron em comunicado à imprensa.
A Geron fez todo o trabalho com verba própria, portanto não
está sujeita a eventuais limitações
ao financiamento federal de pesquisas com células-tronco embrionárias humanas
"O Shepherd Center é um dos sete centros potenciais nos EUA que poderão cadastrar pacientes no teste clínico." A Universidade Northwestern, em Chicago, também está pronta para cadastrar pacientes.
As células-tronco usadas pela Geron vêm de embriões humanos excedentes de tratamentos de fertilidade. Foram manipuladas para se tornarem precursoras de determinados tipos de células nervosas - elas poderão se converter em células destruídas pela lesão na medula do paciente.
O principal objetivo do teste clínico de fase 1 é avaliar a segurança e a tolerência às células derivadas de células-tronco embrionárias chamadas GRNOPC1 nas pessoas paralisadas depois de uma lesão na medula. Um dos receios entre os pesquisadores é que as células-tronco acabem gerando tumores. Os participantes no estudo devem ter sofrido lesão recentemente e receber as GRNOPC1 em um período de menos de 14 dias, informou a Geron.


Teste de fase 1 não tem por objetivo curar o paciente, mas determinar se as células são seguras
A esperança é que as células-tronco se desloquem até o local da lesão e liberem compostos que ajudem os nervos lesionados da medula a se regenerar.
O teste de fase 1 não terá por objetivo curar pacientes, mas determinar se as células são seguras para uso. Pelas diretrizes definidas para o teste, os pacientes devem apresentar lesões muito recentes.
A Geron afirmou que o Shepherd Center vai manter em sigilo as informações sobre o pacientes.
Dinheiro próprio
Como a Geron fez todo seu trabalho com verbas próprias, ela não é sujeita às limitações impostas ao financiamento federal de pesquisas com células-tronco embriônicas humanas.
O governo dos EUA está atualmente envolvido em uma disputa legal em torno das células-tronco. Semanas depois de tomar posse, em 2009, o presidente Barack Obama emitiu uma ordem executiva reduzindo as restrições ao financiamento federal das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas.
Os adversários do uso das células-tronco dizem que é eticamente inaceitável utilizar um embrião humano para produzir as células, e dois pesquisadores processaram os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês). Uma corte federal de apelações decidiu continuar a autorizar o financiamento federal dos estudos até que a ação seja julgada.
No Brasil
No Brasil, o julgamento sobre o uso de células-tronco embrionárias humanas começou em março de 2008. A discussão foi interrompida por um pedido de vista do então ministro Carlos Alberto Menezes Direito. Em 28 de março daquele ano, o tema voltou à pauta do STF. Depois de quase 11 horas, o julgamento foi novamente suspenso. Só foi concluído após quase cinco horas de sessão.
Aprovada pelo Congresso Nacional em 2005, a Lei de Biossegurança foi alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) do então procurador-geral da República, Cláudio Fonteles. Ele alegava que a legislação feria a proteção constitucional do direito à vida e a dignidade da pessoa humana. Para Fonteles, a vida humana começa com a fecundação.
Após o resultado, o mais antigo ministro do Supremo, Celso de Mello, explicou que não seria preciso nenhuma regulamentação extra no texto da lei. “O tribunal confirmou a inteira validade do artigo 5º da Lei de Biossegurança e liberou as pesquisas, observados os limites estabelecidos pelo próprio artigo”, resumiu.
A lei prevê que os embriões usados nas pesquisas sejam inviáveis ou estejam congelados há três anos ou mais e veta a comercialização do material biológico. Também exige a autorização do casal.
“Foi um julgamento histórico, em que o tribunal discutiu os limites entre a vida e morte. São questões que interessam à generalidade das pessoas”, comentou Celso de Mello, que votou pela liberação dos estudos.

Com informações da Reuters e da France Presse